O crescimento explosivo da produção de dados digitais tornou o armazenamento de informações um dos grandes desafios tecnológicos do século XXI.
Cada atividade realizada na internet – envio de mensagens, uso de serviços em nuvem, funcionamento de inteligências artificiais e registros institucionais – gera quantidades gigantescas de dados que precisam ser preservados por anos ou décadas.
Atualmente, a maior parte dessas informações é guardada em discos rígidos ou fitas magnéticas instaladas em grandes centros de dados, em estruturas que consomem enormes quantidades de energia elétrica e exigem sistemas permanentes de refrigeração. Estimativas indicam que esses centros já respondem por cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade, com tendência de crescimento significativo nas próximas décadas.
Diante desse cenário, pesquisadores buscam novas tecnologias capazes de armazenar volumes muito maiores de dados por períodos extremamente longos, com menor consumo de energia e maior estabilidade física.
Entre as propostas mais promissoras estão duas abordagens inovadoras: o armazenamento em cristais de vidro modificados por laser e o armazenamento em moléculas de DNA.
GRAVAÇÕES EM VIDRO DE SÍLICA
A pesquisa sobre gravação de dados em cristais de vidro tem como um dos principais nomes o físico e especialista em optoeletrônica Peter Kazansky, da University of Southampton.
A origem dessa tecnologia remonta a experimentos realizados no final da década de 1990, em colaboração com pesquisadores da Kyoto University. Durante testes com lasers ultrarrápidos de femtossegundos aplicados a vidro de sílica, os cientistas observaram a formação de nanoestruturas microscópicas criadas por micro explosões no interior do material.
- Femtossegundo é unidade de tempo extremamente pequena, utilizada na física e em pesquisas de alta tecnologia.
- Um femtossegundo corresponde a um quadrilionésimo de segundo, ou seja, 0,000000000000001 segundo. Em notação científica, equivale a 10⁻¹⁵ segundo.
Essas nanoestruturas alteram a forma como a luz atravessa o vidro. A partir dessa propriedade, tornou-se possível codificar dados digitais dentro do material por meio de variações na orientação e intensidade da luz.
Diferentemente das técnicas tradicionais, essa abordagem permite o chamado armazenamento em cinco dimensões, pois além das três coordenadas espaciais são utilizadas propriedades ópticas da luz para codificar informação.
O resultado é um meio de armazenamento extremamente denso e durável. Um disco de vidro de aproximadamente cinco polegadas pode armazenar até cerca de 360 terabytes de dados, com potencial de preservação por milhares ou até milhões de anos, já que o vidro de sílica possui grande estabilidade química e térmica. Outra vantagem é que, após a gravação das informações, o material não precisa permanecer energizado para manter os dados armazenados.
A leitura dessas informações é realizada com microscópios ópticos especializados capazes de detectar mudanças de polarização e intensidade da luz causadas pelas nanoestruturas.
Embora a tecnologia ainda esteja em desenvolvimento, empresas derivadas da pesquisa acadêmica já trabalham para transformá-la em sistemas comerciais voltados principalmente ao arquivamento de grandes volumes de dados de longo prazo.
GRAVAÇÕES EM DNA
Outra linha de pesquisa que desperta grande interesse científico é o armazenamento de dados em DNA. A ideia foi proposta em 1964 pelo cientista soviético Mikhail Samoilovich Neiman, e experimentos realizados desde a década de 1980 demonstraram sua viabilidade prática.
Nesse método, dados digitais são convertidos em sequências correspondentes às quatro bases químicas do DNA: adenina, timina, citosina e guanina. Essas bases passam então a representar combinações de bits da informação original.
A densidade potencial de armazenamento do DNA é extraordinária. Em teoria, um único grama de material genético poderia guardar até cerca de 215 petabytes de dados, quantidade equivalente a centenas de milhões de gigabytes. Além disso, quando preservado em condições adequadas, o DNA pode permanecer estável por milhares de anos sem necessidade de consumo contínuo de energia.
Grandes empresas de tecnologia também passaram a investigar essa possibilidade. A Microsoft, por exemplo, já demonstrou experimentalmente a gravação de centenas de megabytes de dados em moléculas de DNA e participa de iniciativas de pesquisa destinadas a tornar esse processo economicamente viável.
DESAFIOS TÉCNICOS
Apesar do enorme potencial, tanto o armazenamento em cristais de vidro quanto o armazenamento em DNA ainda enfrentam desafios técnicos e econômicos.
Entre eles estão o custo dos equipamentos de gravação, a velocidade relativamente limitada de leitura e escrita e a necessidade de desenvolver padrões industriais capazes de integrar essas tecnologias à infraestrutura computacional existente.
Mesmo assim, esses estudos representam uma possível transformação radical na forma como a humanidade preserva informação.
Em um mundo onde a produção de dados cresce exponencialmente, tecnologias capazes de armazenar enormes quantidades de informação por séculos ou milênios podem se tornar fundamentais para ciência, cultura, administração pública e memória histórica da civilização.
O texto anterior utilizou como uma das fontes a matéria de Laurie Clarke, sob o título “O que são os ‘cristais de memória’ que desafiam leis da física e prometem solucionar o problema do armazenamento de dados”, publicado no Portal BBC News Brasil, em 11/03/2026.
Fontes; pesquisas virtuais.
Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
12/03/2026

