O descrédito nas instituições brasileiras não nasceu de um episódio isolado, nem de uma divergência momentânea.
Ele é fruto de processo lento, acumulativo e profundamente desgastante.
Trata-se de erosão contínua da confiança pública, construída ao longo de anos de promessas não cumpridas, incoerências reiteradas, decisões contraditórias e atitudes que, repetidas à exaustão, geraram em grande parte da sociedade a sensação de anormalidade institucional permanente.
A cada posse, ouve-se o juramento solene de manter, defender e cumprir a Constituição, promover o bem geral do povo brasileiro e preservar a integridade da nação.
No entanto, não raramente, logo após assumirem seus cargos, muitos parecem esquecer – ou convenientemente ignorar – o compromisso assumido. Essa aparente amnésia institucional se revela em práticas que afrontam princípios constitucionais básicos, como transparência, responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e respeito às normas que deveriam ser inegociáveis.
No Poder Legislativo, a frustração tornou-se crônica. Escândalos sucessivos, iniciativas voltadas à autoproteção corporativa, ampliação de privilégios e mecanismos de blindagem política criaram distanciamento quase intransponível entre representantes e representados.
A sensação predominante deixou de ser apenas a de ineficiência; passou a ser a de que o poder legislativo, em muitos momentos, opera mais para preservar interesses próprios do que para servir ao interesse público.
No Poder Executivo, as decepções se repetem independentemente de ideologias ou discursos eleitorais. Alternam-se governos, mas persistem práticas como improvisação administrativa, aparelhamento político, alianças contraditórias e tolerância com condutas questionáveis. Crises fiscais recorrentes, colapsos na saúde, educação, segurança e infraestrutura reforçam a impressão de que projetos de poder frequentemente se sobrepõem a projetos de nação. O cidadão comum, que arca com impostos elevados e serviços precários, sente-se desamparado e desrespeitado.
Durante muito tempo, o Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal Federal, foi percebido como último guardião da estabilidade institucional.
Era visto como porto seguro diante dos excessos dos demais poderes. Contudo, essa confiança também passou a ser abalada. Decisões monocráticas de enorme impacto, mudanças abruptas de entendimento jurídico, interpretações expansivas da Constituição e crescente exposição política de magistrados contribuíram para a percepção de imprevisibilidade.
Julgamentos históricos envolvendo corrupção política, inicialmente celebrados como marcos no combate à impunidade, foram posteriormente revistos, anulados ou reinterpretados.
Embora amparadas em fundamentos técnicos, tais revisões tornaram-se, para o cidadão comum, difíceis de compreender, obretudo quando resultam em benefícios expressivos a figuras anteriormente condenadas. Esse movimento pendular da jurisprudência alimenta a sensação de insegurança jurídica e possível seletividade.
Somam-se a isso notícias recorrentes sobre vínculos pessoais, familiares ou profissionais entre autoridades e setores economicamente poderosos.
Ainda que nem sempre configurem irregularidades, a simples aparência de conflito de interesses, quando mal esclarecida, corrói a credibilidade institucional.
Em matéria de justiça, a confiança não depende apenas da legalidade formal, mas também da percepção inequívoca de imparcialidade.
A imposição prolongada de sigilos, a limitação de acesso a informações de grande interesse público e a comunicação institucional frequentemente insuficiente ampliam o espaço para suspeitas.
Mesmo quando há justificativa legal, a falta de clareza alimenta a impressão de opacidade. E onde há opacidade, prospera a desconfiança.
O problema deixa de ser individual e passa a ser sistêmico, quando decisões sucessivas parecem produzir efeitos que beneficiam sempre os mesmos grupos, enquanto a população absorve as consequências econômicas, sociais e institucionais.
O cidadão comum percebe-se submetido a regras rígidas, enquanto setores influentes parecem transitar em zonas de flexibilidade interpretativa.
O resultado é ambiente de inconformismo profundo. Cresce a sensação de que as instituições, que deveriam proteger, equilibrar e servir, tornaram-se estruturas distantes, complexas e muitas vezes inacessíveis.
A democracia, embora formalmente preservada, sofre abalos quando suas engrenagens perdem legitimidade moral aos olhos da sociedade.
A descrença não surge por capricho. Ela se constrói decisão após decisão, silêncio após silêncio, incoerência após incoerência.
Quando Executivo, Legislativo e Judiciário passam a ser percebidos como partes de um mesmo mecanismo incapaz de responder com clareza, justiça e previsibilidade, instala-se um sentimento coletivo de frustração que ultrapassa divergências partidárias.
O que resta é uma mistura de decepção, indignação e desalento. Não se trata necessariamente de acusar, mas de questionar. Não se trata de condenar previamente, mas de não conseguir mais confiar plenamente. É a dor cívica de quem acredita na importância das instituições, mas se sente traído por sua prática reiterada.
Esse descrédito é talvez um dos fenômenos mais graves de nosso tempo, porque corrói silenciosamente o vínculo entre o Estado e o cidadão. E quando esse vínculo se enfraquece, o próprio sentido de pertencimento democrático começa a vacilar.
Obs.- Uma cópia fiel deste texto foi remetido diretamente para diversas autoridades dos três poderes.
Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
11/02/2026

