DESCRÉDITO NAS INSTITUIÇÕES
O descrédito nas instituições brasileiras não surgiu de forma abrupta, nem pode ser atribuído a único episódio isolado.
Trata-se de processo longo, cumulativo e profundamente corrosivo, alimentado por sucessivas frustrações, promessas não cumpridas, decisões contraditórias e comportamentos institucionais que, ao longo do tempo, passaram a gerar na população a sensação persistente de anormalidade, injustiça, possível desvio de finalidade e descrédito.
Permanentemente constatamos que, assim que assumem seus cargos, grande número de eleitos não lembram, ou fingem ter esquecido, do juramento que prestaram no cerimonial de posse; “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição da República, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro e sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil.”
São graves essas “falhas de memória”, principalmente quando acompanhadas de atos que contrariam o juramento, resultando em afrontas às nossas leis, deixando de respeitar princípios básicos da nossa Constituição, a exemplo da execução orçamentária, de praticar e manter transparência, rastreabilidade e eficiência.
No âmbito do Poder Legislativo, a descrença consolidou-se há décadas. A repetição de escândalos políticos, a frequente priorização de interesses particulares, a proliferação de projetos voltados à autoproteção corporativa, ao aumento de privilégios e à blindagem para maus políticos, além da distância cada vez maior entre representantes e representados, contribuíram para ambiente em que grande parte da sociedade passou a enxergar o Congresso como uma instituição desconectada das reais necessidades nacionais.
A percepção pública dominante não é apenas de ineficiência, mas de possível uso estratégico do poder legislativo para fins alheios ao interesse coletivo.
O Poder Executivo, por sua vez, também acumula severas decepções. Ao longo de sucessivos governos, independentemente de orientação ideológica, repetiram-se episódios de má gestão, improvisação administrativa, aparelhamento político, alianças contraditórias e tolerância com práticas questionáveis.
Além de políticas erráticas, crises fiscais recorrentes, colapsos em áreas essenciais, como saúde, educação, segurança, transporte e infraestrutura, reforçaram a sensação de que o comando do Estado frequentemente serve mais a projetos de poder do que à construção de soluções estruturais duradouras.
Durante muito tempo, o Poder Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal Federal, foi visto como um último bastião de equilíbrio institucional, guardião da Constituição e árbitro confiável dos conflitos entre os poderes.
Essa confiança, no entanto, vem sendo progressivamente abalada.
Decisões monocráticas de grande impacto nacional, mudanças bruscas de entendimento jurídico, interpretações elásticas da Constituição e a crescente exposição política de certos magistrados, como agora novamente acontecendo, contribuem para que parcela significativa da população passasse a questionar a neutralidade e a previsibilidade da Corte.
Eventos históricos amplamente conhecidos reforçaram essa percepção. Julgamentos emblemáticos envolvendo corrupção política, como os relacionados ao Mensalão e à Operação Lava Jato, produziram efeitos contraditórios ao longo do tempo.
Condenações antes consideradas marcos no combate à corrupção foram posteriormente revistas, anuladas ou reinterpretadas, muitas vezes com fundamentos técnicos difíceis de serem compreendidos pelo cidadão comum, principalmente quando beneficiam antigos condenados, os favorecendo acentuadamente.
Não raro, forçam o uso indevido das leis, para beneficiar pessoas e/ou poderosos grupos negativamente influentes.
Esse vai e vem jurídico, ainda que amparado em teses legais, alimentou a sensação de insegurança institucional e de possível seletividade na aplicação da justiça.
Outro fator relevante para o desgaste institucional é a recorrente circulação de notícias sobre relações pessoais, familiares ou profissionais entre agentes públicos de alto escalão e setores econômicos poderosos.
Mesmo quando não comprovando irregularidades, tais vínculos, quando mal explicados ou pouco transparentes, geram inevitáveis suspeitas na opinião pública. A simples aparência de conflito de interesses, sobretudo em decisões sensíveis, é suficiente para minar a confiança social, principalmente no STF.
A imposição de sigilos prolongados sobre investigações de grande impacto, a limitação do acesso público a informações relevantes e a adoção de medidas que retardam ou fragmentam apurações oficiais reforçam a percepção de que algo está sedo ocultado.
Ainda que existam justificativas legais para o sigilo, a ausência de comunicação clara e convincente com a sociedade aprofunda o sentimento de desconfiança e descrédito.
Nesse contexto, não se trata apenas de suspeitar de indivíduos específicos, mas de questionar o funcionamento do sistema como um todo.
Quando decisões reiteradas produzem efeitos práticos que parecem favorecer sempre os mesmos indivíduos e/ou grupos, enquanto a população arca com consequências econômicas, sociais e institucionais negativas, a confiança coletiva se deteriora rapidamente.
O resultado desse processo é ambiente de profundo inconformismo social.
A população passa a enxergar as instituições não como instrumentos de proteção e justiça, mas como estruturas distantes, opacas e possivelmente capturadas por interesses restritos.
O efeito mais grave desse cenário é o enfraquecimento da própria democracia, pois instituições desacreditadas perdem autoridade moral, legitimidade e capacidade de coesão social.
A descrença não nasce do nada. Ela é construída, decisão após decisão, silêncio após silêncio, incoerência após incoerência.
Ainda que por suspeita, quando Executivo, Legislativo e Judiciário passam a ser vistos como engrenagens de um mesmo sistema disfuncional, o dano institucional torna-se profundo e duradouro.
É esse acúmulo de frustrações, suspeitas plausíveis, incoerências visíveis e falta de transparência que alimenta o sentimento generalizado de decepção. Um sentimento que não acusa, mas questiona. Que não condena, mas desconfia. E que, infelizmente, encontra cada vez mais razões para existir.
Fontes; pesquisas virtuais.
Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
20/01/2026

